
Capoeira... Jataí Capoeira era o nome da academia que ajudei a construir e manter.
Sérgio Swedenborg era o seu mentor.
Jataí Capoeira professava um olhar diferente para a capoeira, era inspirada numa
abelha sem ferrão, o que simbolizava claramente os nossos objectivos de união, trabalho, cooperação e NÃO violência. Sempre fomos um grupo pequeno porque o Sérgio tinha tido muita influências de filosofias orientais, e achava interessante introduzir isso na capoeira.
Muitos pensam que talvez fosse desvirtuar a capoeira, mas creio que no meu entender, era justamente o contrário, era mantê-la viva, e principalmente o legado de "melting pot" que a caracteriza.
Estou a falar de introduzir a meditação no final dos treinos, de perceber o papel psicológico, arquetípico e somático dos movimentos e figuras circulares, compreender a natureza da espinha dorsal e pontos vitais, atingir estados alfa, movimentação lenta (tipo Tai Chi), massagens, auto-massagens, etc., sem falar nos aspectos mais teóricos... Orixás, Energias, Prana, História, Chi, Energia Vital, etc... ainda lembro quando depois de uma aula de capoeira o Sérgio nos encarrega de fazer um trabalho sobre a influência da chegada da Corte Portuguesa ao Brasil, na Capoeira.
Jataí estava à frente do seu tempo, frequentada principalmente por uns quantos "carolas" e estudantes de Erasmus, e visitada por capoeiristas avançados, apelava a uma leitura mais profunda, não imediata da capoeira, não esquecer que falamos dos anos 1995-99, altura de grande proliferação da Capoeira nos media, desde publicidade, novelas, documentários, programas de intervenção comunitária, tudo usava a capoeira, e toda a gente a practicava. No entanto o que passava eram o corpos esculturais, os biquinis das meninas, e os mortais e figuras acrobáticas.
Jataí Capoeira optava por não dar isso, e consequentemente não atraía quem isso procurava, atraía quem já conhecia um pouco da Arte, e queria pensar nela, ou quem apenas queria viver a cultura da música, aliada a uma expressão corporal e artística.
Foram tempos muito bons, Sérgio e Jataí devolveram-me a minha vida numa altura muito difícil para mim. Feliz ou Infelizmente houve escolhas que tiveram de ser feitas e ela ficou em "stand-by", nunca me abandonou e de vez em quando ainda me visita através de amigos, imagens, sons, coincidências... Hoje foi mais uma das suas visitas... Algum dia voltarei à minha dama? Não sei, sei o início da uma história... mas muito ainda está por escrever... Axé!
nota: Vejam o
site Jurássico da Academia Jataí Capoeira, feito por mim (1999).
Raiva banhou a minha vida... como é que me podem desdenhar assim!
Para os angolanos sou português, para os portugueses sou angolano, para os Lusodescententes nascidos em Angola, eu sou ainda menos angolano que eles!
Durante anos lutei para convencer a todos que eu era africano, queria ir a festas angolanas, queria gostar de comida africana, queria ser promíscuo como os homens angolanos, mas por mais que fizesse nunca sentia a aceitação, nem a "deles" nem a minha.
Com o tempo fui percebendo que só possuo a minha alma, espiritualmente ligado a todos, sou uma semente com a Doce Missão de Crescer na Luz do InI Caminho. Compete-me a mim nutrir esta semente com Amor e Paz. Este africano que procurava... eu não sou, porque eu não o conheço... é o kuduro? É o calão? É a guerra fratricida que ceifou o meu pai? É a soberba nacionalista? É Angola, Cabo Verde, Togo, África do Sul, Nigéria, Marrocos... não sei, e de facto não me revejo em nehum!
Revejo-me noutros símbolos e vivências: o amor à terra e às pessoas, uma visão cosmogônica mais ecoconsciente, o valor da família, as expresões artísticas, o sorrir no meio da adversidade, a comida, o canto...
Tudo é um, e uma coisa não existe sem a outra, fazer e ser são como o Ying e o Yang, não existem separados.
Para descobrir o meu africano, a transformação das minhas acções teria de vir como uma consequência da minha expressão interior. Descobri-o quando comecei a fazer capoeira, quando bebi da fonte rastafari, quando nasceu a minha filha...
O Africano que escolho ser, é o de alguém que traça a sua origem a África, e que pertence à Raça Humana. África não é para onde vou, mas sim de onde vim. O meu caminho é para a Vida, para o compromisso da Criação, para a Paz e o Amor.
O maravilhoso da Perfeição da Criação, é que precisei de separar para poder juntar, precisei que me afastassem de África, para a poder encontrar, precisei que me despojassem de identidade para poder encontrar a minha Alma. Agradeço aos Anjos que me desafiaram a iluminar o meu caminho. Namastê.
...vivemos no paraíso, e neste Jardim o Homem terá tudo o que precisa. Assim é.
[fim.]