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domingo, 21 de junho de 2009

Não sou africano

Estou mais calmo... De facto vivemos no paraíso, e como Jah falou, neste Jardim o Homem terá tudo o que precisa.

Foi-me dito que para ser africano, é preciso ter nascido em África, ter vivido em África, ter pais Africanos, ter côr Africana... e que por isso eu não sou africano, não preencho todos esses requisitos.

É verdade! [leia mais...]


Raiva banhou a minha vida... como é que me podem desdenhar assim!
Para os angolanos sou português, para os portugueses sou angolano, para os Lusodescententes nascidos em Angola, eu sou ainda menos angolano que eles!

Durante anos lutei para convencer a todos que eu era africano, queria ir a festas angolanas, queria gostar de comida africana, queria ser promíscuo como os homens angolanos, mas por mais que fizesse nunca sentia a aceitação, nem a "deles" nem a minha.

Com o tempo fui percebendo que só possuo a minha alma, espiritualmente ligado a todos, sou uma semente com a Doce Missão de Crescer na Luz do InI Caminho. Compete-me a mim nutrir esta semente com Amor e Paz. Este africano que procurava... eu não sou, porque eu não o conheço... é o kuduro? É o calão? É a guerra fratricida que ceifou o meu pai? É a soberba nacionalista? É Angola, Cabo Verde, Togo, África do Sul, Nigéria, Marrocos... não sei, e de facto não me revejo em nehum!

Revejo-me noutros símbolos e vivências: o amor à terra e às pessoas, uma visão cosmogônica mais ecoconsciente, o valor da família, as expresões artísticas, o sorrir no meio da adversidade, a comida, o canto...

Tudo é um, e uma coisa não existe sem a outra, fazer e ser são como o Ying e o Yang, não existem separados.

Para descobrir o meu africano, a transformação das minhas acções teria de vir como uma consequência da minha expressão interior. Descobri-o quando comecei a fazer capoeira, quando bebi da fonte rastafari, quando nasceu a minha filha...

O Africano que escolho ser, é o de alguém que traça a sua origem a África, e que pertence à Raça Humana. África não é para onde vou, mas sim de onde vim. O meu caminho é para a Vida, para o compromisso da Criação, para a Paz e o Amor.

O maravilhoso da Perfeição da Criação, é que precisei de separar para poder juntar, precisei que me afastassem de África, para a poder encontrar, precisei que me despojassem de identidade para poder encontrar a minha Alma. Agradeço aos Anjos que me desafiaram a iluminar o meu caminho. Namastê.

...vivemos no paraíso, e neste Jardim o Homem terá tudo o que precisa. Assim é.
[fim.]

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Jataí Capoeira

foto de Professor Sérgio Swedenborg e Formador BicaHenda (Nelson Capoeira... Jataí Capoeira era o nome da academia que ajudei a construir e manter. Sérgio Swedenborg era o seu mentor.

Jataí Capoeira professava um olhar diferente para a capoeira, era inspirada numa abelha sem ferrão, o que simbolizava claramente os nossos objectivos de união, trabalho, cooperação e NÃO violência. Sempre fomos um grupo pequeno porque o Sérgio tinha tido muita influências de filosofias orientais, e achava interessante introduzir isso na capoeira.
Muitos pensam que talvez fosse desvirtuar a capoeira, mas creio que no meu entender, era justamente o contrário, era mantê-la viva, e principalmente o legado de "melting pot" que a caracteriza.

Estou a falar de introduzir a meditação no final dos treinos, de perceber o papel psicológico, arquetípico e somático dos movimentos e figuras circulares, compreender a natureza da espinha dorsal e pontos vitais, atingir estados alfa, movimentação lenta (tipo Tai Chi), massagens, auto-massagens, etc., sem falar nos aspectos mais teóricos... Orixás, Energias, Prana, História, Chi, Energia Vital, etc... ainda lembro quando depois de uma aula de capoeira o Sérgio nos encarrega de fazer um trabalho sobre a influência da chegada da Corte Portuguesa ao Brasil, na Capoeira.

Jataí estava à frente do seu tempo, frequentada principalmente por uns quantos "carolas" e estudantes de Erasmus, e visitada por capoeiristas avançados, apelava a uma leitura mais profunda, não imediata da capoeira, não esquecer que falamos dos anos 1995-99, altura de grande proliferação da Capoeira nos media, desde publicidade, novelas, documentários, programas de intervenção comunitária, tudo usava a capoeira, e toda a gente a practicava. No entanto o que passava eram o corpos esculturais, os biquinis das meninas, e os mortais e figuras acrobáticas.

Jataí Capoeira optava por não dar isso, e consequentemente não atraía quem isso procurava, atraía quem já conhecia um pouco da Arte, e queria pensar nela, ou quem apenas queria viver a cultura da música, aliada a uma expressão corporal e artística.

Foram tempos muito bons, Sérgio e Jataí devolveram-me a minha vida numa altura muito difícil para mim. Feliz ou Infelizmente houve escolhas que tiveram de ser feitas e ela ficou em "stand-by", nunca me abandonou e de vez em quando ainda me visita através de amigos, imagens, sons, coincidências... Hoje foi mais uma das suas visitas... Algum dia voltarei à minha dama? Não sei, sei o início da uma história... mas muito ainda está por escrever... Axé!


nota: Vejam o site Jurássico da Academia Jataí Capoeira, feito por mim (1999).

quinta-feira, 7 de maio de 2009

A minha leitura rastafari

Muitas vezes andamos à procura de nos definir, e nessa procura às vezes perdemos coisas essenciais, e andamos em círculos... mas na vida nada se perde, tudo se transforma, e um dia acabaremos por receber os frutos do nosso caminho!

Assim, para mim rastafari representa mais um dos pilares de quem eu sou. Se falarem comigo não me vão ver a fumar ganza, ou a pertencer a algum culto secreto, e muito menos ter bichos e cheiro fétido no meu cabelo. Inclusivamente se procuram rastas, comigo até poderão ficar um pouco desapontados, afinal de contas visto-me de maneira ocidental, trabalho numa grande instituição, sou psicólogo, etc... Será que sou rasta? Pois é, a primeira coisa que podemos pensar juntos é que o rastafari não se extingue naquilo que nós achamos que é, rastafari é mutável e evolutivo, e por isso quando o tentamos fixar, ele transmuta-se e surpreende-nos!

Mais concretamente, sinto rastafari como a expressão na diáspora de um desejo de voltar ao ventre materno arquetípico africano, o regresso ao Éden de onde fomos arrancados contra nossa vontade, o regresso triunfante a Zion depois das provações da Babilónia.

Muitas leituras podem ser feitas, desde as mais materiais, às mais místicas e simbólicas. Eu escolho pensar que este Êxodo é uma viagem interior ao nível psicológico e da identidade, com semelhança à circum-ambulação de Carl G. Jung (mandala), trata-se no fundo de encontrar a individualidade perdida, na síntese do reencontro entre a parte que partiu, e a que ficou!

Assim, o rastafari não é o africano, mas vem de lá e para lá retorna, diferente, mudado, acrescido, fechando o círculo da espiral do crescimento. No fundo nunca deixou de ser africano, mas para se conhecer, teve que abandonar África, separar-se violentamente do ventre materno, para durante uma vida fazer o caminho de volta.

A visão do rastafari que mais "tempo de antena" tem, acaba por descrever o "rastafarianismo" como:

"(...) a monotheistic, Abrahamic, new religious movement[1] that accepts Haile Selassie I, the former Emperor of Ethiopia, as the incarnation of God, called Jah[2] or Jah Rastafari."

(Um novo movimento religioso, monoteísta e Abraãmico, que aceita Haile Selassie I, antigo Imperador da Etiópia como a incarnação de Deus, chamado de Jah ou Jah Rastafari
)
tradução livre de Lopes

Esta foi também a visão que partilhei durante muito tempo, e que era ao mesmo tempo um obstáculo para que abraçasse mais fortemente a cultura rastafari. Não há dúvida que há raízes importantes na origem deste movimento, mas os seus preceitos paz, amor e fraternidade são comuns a todas as tradições religiosas, e se isso não me convenceu a trilhar outros caminhos porque trilhar este?

Por causa de África. Por causa da minha própria condição, exilado num país que não reconheço como meu e onde me sinto estrangeiro. Esta lacuna provoca um desejo, um desejo de conhecer o que me falta, e assim dou o primeiro passo. Hip Hop, basquete, capoeira, rituais, Luanda, música... vou pesquisando e juntando as peças do puzzle da Africanidade perdida, não sou angolano, porque a minha busca não é política mas antropológica, psicológica, social, étnica... sou... ou procuro ser... africano.

Este afrocentrismo pretende cortar com as histórias de vitimização e auto-vitimização, e recuperar a importância e a auto-estima de toda a humanidade, pois a Humanidade só poderá ser livre quando cada um dos povos, comunidades, grupos étnico, etc., puder erguer a cabeça em orgulho do seu passado e do seu legado. (ver H.I.M. Discurso às Nações Unidas em 1963)

A capoeira ajudou-me a traduzir rastafari para mim. Ambas africanas, ambas com grande influência católica, mas lutando para se libertar do opressor, esquecendo apenas por momentos que são mestiças, filhas do oprimido e do opressor, como deve e tem de ser.
Ambas são mais construídas pelas pessoas que as practicam do que por um líder eleito oligarquicamente que se apresenta como a palavra sagrada ou mandatado por Deus.

Anarcas por natureza, procuram devolver o poder àquele que practica, não há regras, a não ser paz, amor e fraternidade, que se resume tudo ao amor, amor a Deus, amor a mim próprio, amor ao próximo, amor à minha comunidade, amor a toda a minha família de seres vivos e não vivos.

Rastafari através de InI procura deitar abaixo as barreiras que separam os seres e reconhecer (namaste) a divindade que cada um tem pulsando em si.

Os locks são também uma parte importante, representam o deixar o cabelo natural e livre, sem ter que imitar os cabelos dos ocidentais, há muitas mudanças a ocorrer e eu sou parte delas, porque também levo a minha mudança comigo... e que grande é esta viagem... Joy in Exodus!

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Capoeira e Rasta

Abril de 1998: Batizado da Academia Jataí na Cidade Universitária,
com a participação do Mestre Magô, Professor Corisco,
e especial participação do Professor Paulo BoaVida da
Association Le Macaque de Paris.

Em 1995, comecei a fazer capoeira. Acho que toda a minha vida poderia ser apelidada de busca, porque passo todo o tempo à procura de qualquer coisa, nesse tempo era a procura de uma disciplina marcial que me ajudasse a centrar, passei pelo Ioga, pelo Tai-Chi, e fui acabar na Capoeira.

Bem, foi uma descoberta maravilhosa, e qualquer dia tenho que postar algo sobre a capoeira, mas uma coisa de cada vez, e não quero divagar demasiado... acho que terão de estar atentos ao que se passa aqui para poderem ler mais sobre capoeira! lol!

Ora bem, nessa mesma altura comecei a deixar crescer o cabelo, por várias razões:
  1. a minha máquina de rapar o cabelo se tinha avariado

  2. não tinha vontade nenhuma de ir ao barbeiro

  3. não estava muito preocupado com o meu look, já que estava na minha fase "hippie"

  4. porque não deixá-lo crescer natural

  5. influência maioral dos "Arrested Development" (let the wind flow through your lock)

Como podem ver, em nenhuma delas refere a fé rastafari, não é que não conhecesse, apenas nunca me tinha verdadeiramente ligado ao movimento.

Se a minha vida é uma busca, acho que há muitas coisas que vou serendipidicamente encontrando no meu caminho, pequenas coisas que são jogadas no meu trilho, que aparentemente inúteis ou despropositadas depois se tornam centrais... como foi o caminho rastafari!

Frequentemente encontrava malta rastafari que me cumprimentava, porque ao deixar crescer o cabelo, foram-se formando uns rolinhos na minha cabeça, ora esta malta não só me cumprimentava, como falava comigo, e começaram a explicar-me o que era ser rastafari, tive a sorte de encontrar malta muito disponível e interessante, e simpatizei com o movimento, principalmente porque não é absolutista, mas muito anarca, porque cada um na sua relação com Jah vai fazendo o que considera justo, unidos por uma carta de princípios comuns, onde saliento o Respeito, Deus Único (Jah Rastafari), Natureza e Naturalidade (Ital), H.I.M., e África!

Cada rastafari é um guerreiro da paz e harmonia, uma fábrica da natureza e conexão com a natureza, um científico da filosofia e religião, um ditador de liberdade e união.